quarta-feira, 17 de agosto de 2011

UMA ANÁLISE HUMANISTA-EXISTENCIAL DE LE FABULEUX DESTIN D'AMÉLIE POULAIN

Bárbara Santana da Silva*
Débora Fernanda Alves Ribeiro*


 O Existencialismo surgiu em meados do século XIX com o pensador dinamarquês Kierkegaard, alcançando seu apogeu nos anos cinquenta e sessenta, com M. Heidegger e J.P. Sartre. Aliado a esse movimento Abraham Maslow desenvolve a psicologia humanista, que mais tarde passa a ser estudada e levada a frente por Carl Rogers. 
Rogers nasceu no dia 08 de janeiro de 1902 em Oak Park, Illinois, em uma família rigorosamente fundamentalista. Sua infância foi limitada pelas crenças e atitudes de seus pais e pela própria assimilação de suas idéias, “qualquer coisa que hoje eu consideraria como um relacionamento interpessoal, próximo e comunicativo com outro, esteve completamente ausente durante este período” (ROGERS, 1973ª, p. 196 na Ed.bras.) com o passar do tempo sua postura fundamentalista foi se tornando mais liberal. Começou sua graduação em teologia, mas depois preferiu terminar sua graduação em psicologia. Seu primeiro emprego foi em Rochester, Nova Iorque, em um centro de orientação infantil, durante os doze anos que permaneceu em Rochester.
A compreensão de Rogers sobre o processo de psicoterapia progrediu de uma abordagem formal e diretiva para o que iria denominar mais tarde de terapia centrada no cliente. Carl Rogers escreveu vários textos, dentre eles um em 1951, intitulado Terapia centrada no cliente, onde continha a primeira teoria formal sobre a terapia, sua teoria da personalidade. Nesse livro, Rogers infere que a maior força orientadora da relação terapêutica deveria ser o cliente, não o terapeuta.
A teoria de Rogers é embasada pela crença de que as pessoas usam sua experiência para se definir.  Também defende o fato de as pessoas poderem construir e modificar suas opiniões a respeito de si mesmas.
As palavras e os símbolos estão para a realidade na mesma relação que um mapa para o território que o represente....Vivemos num “mapa” de percepções que nunca é a própria realidade. (ROGERS, 1951, p. 469.)

O existencialismo defende o sujeito individual, a responsabilidade, e a subjetividade, considera que cada sujeito é único, mestre dos seus atos e do seu destino. Nesse sentido, afirma ser a existência mais importante que a essência, uma vez que o indivíduo constrói sua vida a cada instante, entre as escolhas que faz e a maneira como se relaciona consigo e com o mundo.
É nessa perspectiva que se pode vincular o filme de Jean-Pierre Jeunet e Guillaume Laurant, intitulado Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain (O Fabuloso destino de Amélie Poulain). A comédia francesa, lançada em 2001, apresenta a vida de Amélie Poulain, do nascimento à vida adulta, com suas dificuldades, vontades e peculiaridades.

Filha de pais neuróticos, seu contato com o pai, médico, se dava no exame mensal, devido aos acelerados batimentos cardíacos de Amélie, enquanto o que ocorria, nada mais era do que decorrente dos sentimentos afetivos diante do contato próximo com seu pai. Em virtude disso, fora proibida de ir à escola, portanto a mãe de Amélie dava-lhe aulas em casa, até sua morte trágica. As vivências de Amélie convergiam para o isolamento, a fantasia e a maneira peculiar de enfrentar a realidade, o que passou a refletir significativamente na idade adulta.

Obtendo a maioridade, Amélie muda-se para um apartamento e passa a trabalhar de garçonete em um restaurante, com pessoas inusitadas: Suzanne, a patroa; na tabacaria, Georgette, “a doente imaginária”; Gina, a colega de Amélie; dos fregueses, Hipolito, “o escritor fracassado”; e Joseph, “o amante ciumento rejeitado por Gina”.
Um dia, descobre em seu apartamento uma caixinha com vários objetos que pertenceram a Dominique Bretodeau, há quarenta anos, quando menino. Passa, então, a procurar Bretodeau para entregar-lhe seus pertences. Na busca pelo dono da caixinha, conhece Madeleine Walace, a viúva, que “chorava feito Madalena arrependida” a morte do marido; Collignon, o quitandeiro, e seu funcionário, Lucien, a quem Collignon sempre maltratava; e seu vizinho de prédio Dufayel, “o homem de vidro”.

É nesse contexto que a trama desenvolve-se, levando Amélie a devolver a caixinha a Bretodeau, através de sua particular forma de enfrentar a realidade, com criatividade e distância. Ao compreender a importância da caixa para aquele homem e sua ajuda na mudança de vida dele, Amélie decide ajudar as pessoas a resolverem seus problemas. Em meio a todas as ajudas, a protagonista apaixona-se e conduz o rapaz em suas fantasias criativas de vida, ao mesmo tempo em que percebe sua dificuldade em relacionar-se com as pessoas.
O filme mostra, com habilidade, a perspectiva existencial na dimensão histórica dos personagens, através de seus gostos, desgostos, dificuldades e anseios, onde é o projeto e a responsabilidade individual que constroem o mundo dos mesmos. Quando Amélie decide por ajudar “a humanidade”, na verdade procura ajudar-se, na construção de si mesma, na medida em que dá sentido a sua existência.

 No desenrolar da trama, não só Amélie, como Dufayel, Lucien, Raphael e Madeleine, procuram superar os dilemas e desafios de viver, reconstruindo, uns com os outros, um modo mais autêntico de existir e projetar-se no mundo. A maneira como os personagens escolhem estar no mundo pode ser feita em função do futuro, causando ansiedade, como em joseph, que tinha tanto medo do desconhecido que mesmo sendo deixado por Gina, não desligou-se dela; ou em função do passado, como Medeleine, que culpava-se por uma vida sem grandes alegrias em função da traição e morte do marido. 
Para o existencialismo, a escolha é algo fundamental para a existência individual, passando mesmo a ser a pessoa resultado de suas próprias escolhas. Através de Dufayel, Amélie compreende a dimensão de suas escolhas e através de sua última, consegue melhorar sua dificuldade de relacionamentos. Embora seja demonstrado um final feliz, fica implícito que os personagens não tornam-se “bonzinhos” ou eternamente felizes, expondo o indivíduo como alguém sempre em comprometimento com a tarefa de dar sentido à sua existência.


*Graduandas do curso de Psicologia pela Universidade Federal de Mato Grosso, Campus Universitário de Rondonópolis (UFMT/CUR).

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